A cantora e compositora Vanessa da Mata não hesitou em aproveitar a oportunidade de tornar-se popular remixando suas canções, e agora com seu quarto trabalho desfruta de um lugar privilegiado na disputada mpb
TEXTO Diego Muniz FOTO Roberto Seba ILUSTRAÇÃO Joana Resek

Foram semanas combinando esta entrevista com Vanessa da Mata. Justiça seja feita, a moça estava em um momento complicado, era fase de acertar detalhes do primeiro DVD e CD ao vivo e uma agenda de shows na Europa. Na primeira brecha, marcamos a entrevista em lugar sugerido por ela, a cafeteria Santo Grão, dentro da Livraria da Vila, em São Paulo. "Gosto desse clima de café com cultura, me sinto à vontade."
E o clima do encontro foi de fato bastante descontraído: entre uma parada e outra para atender aos pedidos de fãs, Vanessa extrapolou o limite, que ela mesma tinha estipulado, e o papo durou mais de duas horas. Quem estava no café nem imaginava que aquilo era uma entrevista, porque parecia uma conversa de bar, ou melhor, de cafeteria, onde quem puxava o assunto - que foi de viagem à Jamaica à culinária mineira - era Vanessa, moça de sorriso fácil. Esse tipo de encontro já virou até letra de música: Quando eu encontro os amigos/Para tomar um café/A rapidez que não tinha/Sem disfarçar/ Parece brincadeirinha/Pega-pega. (Pirraça).
O bom humor e a delicadeza parecem fazer parte da vida da artista. O tempo dela é outro, tanto pode demorar mais de uma hora para tomar o café caramelo que pediu como responder a uma pergunta em 30 segundos.
Esse jeito meio brejeiro e falador, sem estrelismo, é herança da infância vivida na pequena cidade de Alto Garças, interior do Mato Grosso. Filha de fazendeiro, Vanessa nasceu no meio da natureza, seu parque de diversões eram rios e cachoeiras. Mas não confunda o jeito moleca com inocência. Ela sabe muito bem o que quer e cada passo da carreira tem o olhar cuidadoso da dona.
"DEIXA EU USAR MINHAS FLORZINHAS"
Em uma indústria tão viciada e cheia de "regras" para alcançar o sucesso, construir a própria história não é uma tarefa simples. "Só faço o que quero, sei que isso é luxo nessa profissão. Mas foi assim desde o começo, quando entrei na gravadora, eles sabiam que era compositora, e isso ajudou muito porque pude escolher desde as músicas até as roupas que ia usar."
Hoje, essa ousadia pode ser comemorada. Vanessa da Mata virou uma referência, seus cabelos soltos são sua marca registrada e as roupas coloridas já conquistaram muitas adeptas. "Tive que dizer muito 'não' no começo para as gravadoras que pediam que eu usasse minissaia e alisasse o cabelo. Deixa eu usar minhas roupas de florzinha e meu cabelo solto." Dizer 'não' quando não se tem garantia nenhuma de trabalho pode ser considerado uma rebeldia por muitos. "Tenho consciência de que consegui um espaço, e que tenho que trabalhar muito para mantê-lo."
Essa briga pela liberdade começou bem antes de qualquer departamento artístico querer transformá-la. A primeira barreira a ser quebrada foi dentro de casa. Saiu aos 14 anos com o pretexto de estudar para o vestibular de Medicina. Foi morar em um pensionato, em Uberlândia, Minas Gerais.
Lá começou a se apresentar em bares da cidade, chegou até a abrir shows do grupo Só Pra Contrariar, tudo escondido da família. Chegou a trabalhar como modelo. Dona de 1,80 m de altura e de beleza brasileira, aos 17 anos foi vice-campeã do concurso The Look of the Year, promovido pela agência Elite.
SÃO PAULO, CHICO CÉSAR E MARIA BETHÂNIA
Se tivéssemos que traçar uma cronologia na carreira de Vanessa, poderíamos destacar o ano de 1992, quando se mudou para São Paulo e começou a investir definitivamente na carreira musical. Foram necessários dois anos para conhecer Chico César, que, encantado pelo talento da moça, produziu uma fita demo e colocou melodia na letra A Força que Nunca Seca. A canção foi parar na mão de Maria Bethânia, que não só gravou como colocou esse título num de seus discos, em 1999. Apadrinhada por Bethânia, o País começou a se perguntar quem era a compositora que tinha atraído a diva baiana: "Nesse tempo, até pensei em viver somente como compositora, tinha medo de me expor", diz Vanessa, que, antes de gravar seu primeiro álbum, forneceu canções para os trabalhos de Daniela Mercury e Ana Carolina.
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