Por Flavio Federico
Iustração Joana Resek
O cliente tem sempre razão? Será? Nos Estados Unidos uma placa diz: "Reservamo-nos o direito de não servir a quem não queremos". Caso acreditem que algo não está de acordo, eles preferem não atender em vez de criar um problema maior. Algo comum lá mas que não funcionaria no Brasil, por conta do "Você sabe com quem está falando?". O fato de ter um comércio não obriga o proprietário a aguentar "clientes" que saem de casa para despejar raiva e frustração no trabalho de quem está lá para fazê-los sorrir e relaxar. De qualquer forma, no momento em que você entra, senta, pede e relaxa, tudo deveria ser diferente; ou não?
Com a gastronomia na moda, os "chefs-estrelas" têm crescido, gerando um desconforto a quem sai para se divertir. Já ouvi muitas histórias de clientes escorraçados pelos mais estúpidos motivos. Acho que todos temos o direito de gostar ou não e de "reclamar", caso não estejamos de acordo, sem ouvir coisas do tipo "O senhor pode trazer o sal?". "Não, pois minha comida já vem no ponto certo!". Ou "O senhor pode passar mais a minha carne?". "Não faço sola de sapato!"
Porém, reclamar não é despejar a raiva ou perder a razão. Para colorir um pouco nossa vida, segue o relato da minha visita ao restaurante MOTO, do chef Homaru Cantu, em Chicago, Estados Unidos. À procura de novas experiências e conhecimento, fomos, eu e minha esposa, a esse lugar lindíssimo, de arquitetura clean e comida fusion molecular. Vale salientar que sempre vamos com o espírito aberto e sem preconceitos.
O que primeiro chamou nossa atenção foram os atendentes. Desde a recepção, uma mistura do filme Carrie, A Estranha com os personagens de A Família Adams. Rostos brancos e sorrisos fantasmagóricos. Bem bacana o cardápio de papel de arroz com sabor de baconzitos com apenas três opções de "degustação", que trazia ao final meu nome seguido de "divirta-se". Importante dizer que o nome do chef-confeiteiro fazia parte do cardápio, pois Homaru não faz tudo sozinho. Optamos, então, pela degustação de sete pratos e três sobremesas. O primeiro foi um minipolvo com creme de salsinha e "algo" frito no nitrogênio líquido, que parecia, de novo, baconzitos. A cada prato, o garçom dizia "Saúde!" com um sorriso maquiavélico; quase esfregando as mãos e rindo sinistramente. Bom, resumindo para não cansar: tudo tinha algo congelado no nitrogênio, parecendo picolé. Quando chegamos ao quinto prato, recebemos uma louça branca e retangular, com desenhos de faixas de estrada e dois borrões de creme vermelho de beterraba. Sobre um deles, um ragu de carne de caça, e sobre o outro, um pedaço do rim da mesma caça. Não consegui comer tudo e deixei no prato. O garçom se aproximou: "Estranho o suficiente para o senhor?" Não entendi bem a pergunta e respondi que não havia gostado, pois parecia um animal atropelado na estrada e que não me agradava. Ele me respondeu que essa era a ideia e que levaria o comentário ao chef.
Minutos depois, retornou e disse que o chef ficou "ofendido" com meu comentário e desistiu de me servir. Já trouxe a primeira sobremesa dizendo que seriam cinco em vez de três. Como assim? E eu? Não tenho o direito de não gostar de alguma coisa? E os US$ 200 por pessoa? Não havia o que fazer; mas felizmente as sobremesas eram excelentes. Mais uma vez, o desvio do objetivo de servir sucumbiu em prol do ego; uma pena. Com o sentimento de impotência instalado, comemos as sobremesas e partimos.
Quer saber? Às vezes, quando como em lugares estrelados, tenho certeza de que prefiro continuar comendo costela no bafo (a mais macia e saborosa que já provei) no boteco do Newtão. Lá as únicas estrelas são os clientes e a comida. Boa sorte e até a próxima! ˙
Flavio Federico é chef-confeiteiro há mais de quinze anos e proprietário da Sódoces (www.sodoces.com.br), em São Paulo (SP).