POR Antonio Prata* ILUSTRAÇÃO Joana Resek
Poucas coisas, nessa vida, me entristecem mais do que deparar-me com uma mostarda vagabunda. Num boteco, numa padaria, numa parada rodoviária, num bar ajeitadinho até, eu aperto a bisnaga amarela, vejo escorrer a gosma insossa e, com ela, vai minha fé na humanidade.
Eu fico cá a pensar: por que, oh Deus, alguém se dedica a fabricar uma mostarda vagabunda? Sim, pois a mostarda vem de uma fábrica, a fábrica tem um dono e houve um momento na vida desse sujeito em que ele decidiu que o que queria fazer nessa curta passagem sobre a Terra era uma mostarda de quinta. Oito horas por dia, cinco dias por semana ele acorda, se levanta, pega trânsito, briga com fornecedores, contrata, demite, tem pesadelos com planilhas, sofre com a crise, força esferográficas secas sobre folhas de papel e tudo isso para ver, no fim das contas, um trabalho malfeito?!
Já tentei acreditar, com otimismo, que ele não sabia que seu produto era ruim, mas não consegui convencer-me. Mostarda não é vinho, não é uma sinfonia, não é um salto duplo twist carpado, é um condimento simples: sementes, vinagre, especiarias. Se o dono da fábrica quisesse, a faria bem-feita. Por que, então, ele não quer?
Ainda batalhando para manter meu otimismo no ser humano, pensei: ele faz um condimento vagabundo para que seja barato e assim os pobres, que não poderiam nunca comer mostarda de primeira, possam deleitar-se com o molho. A mostarda vagabunda seria, portanto, a vertente gastronômica da distribuição de renda.
Não! Quem come comida ruim não está sendo incluído no topo da pirâmide gustativa, está sendo enganado. Pelo preço da mostarda vagabunda o cidadão pode comprar vários caquis, não um caqui de quinta, mas o melhor caqui do mercado, o mesmo que o Obama ou a rainha Silvia da Suécia comprariam, caso tivessem vontade de comer caquis. Se eu não tenho dinheiro para comer ovas de esturjão, não vou comer ovas de bagre, vou comer um espetinho de queijo coalho, ou tomate com azeite e manjericão, ou caquis, que são frutas maravilhosas, ora bolas.
A única conclusão é que o dono da fábrica está lucrando sobre a ignorância alheia. Está vendendo gato por lebre. Queria mandar uma carta para ele, tentando convencê-lo de que, no desempenho de suas funções, faz do mundo um lugar pior, mas acho que não adiantaria. Ele a leria às gargalhadas, depois a queimaria com a brasa de seu charuto, escondido no bunker subterrâneo do Coringa, ao lado dos fabricantes de papel higiênico rosa, dos azeites misturados com óleo de milho, das roupas que se desfazem, das tesouras sem fio, dos hidratantes que melecam, dos liquidificadores que não liquidificam e soltam fumaça, dos chuveiros elétricos que prometem pressão e água quente mas só fazem pressão sem água quente e, evidentemente, ao lado dos fabricantes de margarina. Que tristeza, como deve ser grande esse bunker subterrâneo...˙