Reunimos alguns chefs franceses que, em busca de trabalho ou aventura, por oportunidade profissional ou amor, adotaram o Brasil como lar, mudando a relação dos seus anfitriões com a gastronomia
TEXTO Patrícia Malta de Alencar IMAGEM Rafael Cañas

Coloque num caldeirão a técnica e precisão francesas e adicione o tempero brasileiro: frutas e especiarias tropicais, calor humano e muita criatividade. Misture bem e, mesmo que a massa não fique homogênea, estará pronta a miscigenação cultural e gastronômica franco-brasileira.
A receita é para quatro porções, mas quase saiu com três, afinal, pontualidade britânica é matéria de inglês! Emmanuel Bassoleil, do restaurante Skye (Hotel Unique), Fabrice Le Nud, da Pâtisserie Douce France, Laurent Suaudeau, do Espaço Cultural Laurent - todos na capital paulista -, e o temporão Marc Le Cornec, do restaurante Les Épices (Sofitel Jequitimar), no Guarujá (SP), representam esse universo de chefs migrantes que vieram parar aqui meio por acaso, cerca de vinte, trinta anos atrás, e ficaram.
BRASIL INCÓGNITO
Quem viaja hoje a turismo ou a negócios tem à disposição uma infinidade de informações sobre seu destino, seja em que parte do planeta for. São milhares de guias, impressos ou virtuais, que explicam os acidentes geográficos, pontos turísticos, hábitos sociais e culturais dos povos, o avanço tecnológico, nível de sustentabilidade e o que mais puder interessar a um viajante. Algumas décadas atrás, porém, não era assim. E quem se dispunha a peregrinar pelo mundo entrava numa aventura incerta e curiosa.
Fabrice chegou meio "virgem" de Brasil; Emmanuel já era habitué dos carnavais; e Laurent, esse fez a lição de casa: abriu a enciclopédia e estudou o território, a população, as principais economias... Marc arriscou a indicação do irmão, desde então cônsul honorário da França em Macapá (AP).
Para nossa sorte, apesar da dificuldade natural de aprender uma nova língua - que os faz arrastar um charmoso sotaque até hoje -, esses e muitos outros chefs estrangeiros que visitaram o Brasil sentiram-se acolhidos pela calorosa recepção do brasileiro.
Mas surpresa mesmo foi descobrir a variedade de frutos e temperos que o solo nacional oferece em abundância. Fabrice, que fez a primeira visita em 1989, resume o choque: "Qualquer estrangeiro que vai a uma feira aqui fica maluco!". O confeiteiro é um legítimo mochileiro e julgou irrecusável uma proposta do Hotel InterContinental, da Cidade Maravilhosa, um Rio de Janeiro caricaturado de que ouvira falar. O que dirá Marc, que aterrissou logo por cima da linha do Equador! Em seu tour du Brésil, seguiu para Belém (PA) e parou, em 1985, no Sofitel Salvador (BA) - certamente uma primeira impressão única deste país.
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Laurent veio meio a contragosto, em 1979, a pedido do mestre veterano Paul Bocuse, para a cozinha do seu Le Saint Honoré. Só pretendia ficar seis meses no Rio e seguir para o Japão. Mas quem consegue deixar o Brasil? Emmanuel, que nos idos de 1987 já tinha dado duas voltas ao mundo a bordo de um cruzeiro, escolheu a capital paulista para aprender o idioma da esposa, também só por alguns meses, enquanto trabalharia no restaurante Roanne, antes de seguir para Los Angeles... Com histórias diferentes, a maioria veio só de passagem, mas, cedo ou tarde, todos encontraram boas oportunidades profissionais, que os fizeram criar raízes do lado de cá.
Uma dessas raízes é das mais brasileiras: mulheres de todas as origens! Cariocas, baianas, paulistas, piauienses... Estes homens - sim, porque na França a carreira de chef não era tão democrática para ambos os sexos como no Brasil - estavam destinados a encontrar seus pares por aqui. "Sem a mulher brasileira, não existiria a gastronomia no Brasil", segundo Fabrice.
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